Afogamento (empate)
Posição em que o jogador no turno não tem nenhuma jogada legal mas não está em xeque, terminando a partida imediatamente em empate.
O afogamento é a regra do xadrez que transforma uma posição aparentemente vencedora em empate quando o lado forte acidentalmente deixou o lado fraco sem jogada legal. A condição é precisa: o jogador a quem cabe mover não tem jogada legal disponível e não está em xeque. O afogamento termina a partida imediatamente em empate, independentemente do balanço material no tabuleiro. Um rei e uma dama contra um rei solitário já afogaram o rei solitário mil vezes na história do xadrez; o jogador com a dama, apesar de cinco peças de vantagem, não ganha.
A condição exata
Uma posição é afogamento quando as três condições seguintes são verdadeiras ao mesmo tempo:
O jogador no turno não tem nenhuma jogada legal — nenhuma peça pode ir a uma casa sem violar as regras do xadrez.
O jogador no turno não está em xeque — nenhuma peça inimiga está atacando seu rei nesse momento.
É o turno desse jogador.
Se o jogador está em xeque mas não tem jogada legal, a posição não é afogamento; é xeque-mate, e o jogador perdeu.
Se o jogador tem uma jogada legal mas não está em xeque, a posição não é afogamento; a partida segue normalmente.
Se o jogador não tem jogada legal e está em xeque, a posição é xeque-mate, não afogamento.
A combinação de “nenhuma jogada legal” com “não em xeque” é toda a condição.
Por que o afogamento é empate
A regra de que o afogamento termina a partida em empate é uma convenção relativamente moderna. Em várias variantes históricas do xadrez — incluindo algumas populares no século XVIII — o afogamento era vitória do lado que afogava, derrota do afogado, ou um resultado intermediário especial. A regra moderna, codificada no século XIX e inalterada desde então, é que o afogamento é empate.
A razão histórica da regra moderna é em parte estética: um jogador conduzido a uma posição sem jogada legal mas sem estar em xeque “escapou” da ameaça de mate por não poder mover-se de todo, e a comunidade xadrezística do século XIX considerou isso uma espécie de vitória moral que merecia pelo menos meio ponto. A razão prática é que a regra de empate premia o jogo cuidadoso: o jogador à frente em material deve ter cuidado para não remover todas as jogadas legais do adversário ao entregar mate, e esse cuidado, na visão consensual do mundo do xadrez, é uma característica desejável do jogo.
O afogamento na prática
O afogamento aparece sobretudo em finais de rei e peão ou rei e peça, onde o lado mais fraco fica reduzido a um rei solitário. O defensor, cercado mas não em xeque, ocasionalmente se vê sem jogada legal de rei e sem outra peça para mover. A posição é afogamento e a partida é empate.
Um exemplo clássico: brancas têm rei em g6, dama em g7, peão em f6. Pretas têm rei em h8. É a vez das pretas. O rei preto não pode ir para g8 (atacado pela dama em g7) nem para h7 (atacado pela dama em g7). As pretas não têm outras peças. As pretas não estão em xeque. A posição é afogamento; a partida é empate.
O exemplo mostra por que o afogamento é preocupação constante do lado mais forte. O jogador branco, querendo ganhar, conduziu o rei preto ao canto e removeu todas as suas jogadas legais — mas não por xeque-mate. Sem que a dama tenha dado xeque, a posição é afogamento em vez de mate, e o jogador branco perde meio ponto que deveria ter sido inteiro.
O afogamento como recurso defensivo
O afogamento é também um recurso defensivo para o lado mais fraco. Um jogador conduzido a uma posição inferior pode às vezes encontrar jogadas que levam ao afogamento em vez de a xeque-mate ou perda de material. Os exemplos clássicos envolvem reis encurralados: um rei preso num canto com todas as casas de fuga atacadas mas sem estar em xeque. O defensor joga pelo afogamento; o atacante, se descuidado, aceita o empate em vez da vitória.
O exemplo prático mais famoso é o final de torre contra bispo, onde o lado mais fraco (com a torre) às vezes pode forçar o afogamento sacrificando a torre pelo bispo e alcançando uma posição pura de rei contra rei na qual o rei não tem jogada. A técnica é ensinada como “sacrifício por afogamento” e é uma das técnicas defensivas centrais em finais de peça.
Afogamento versus xeque-mate
A distinção entre afogamento e xeque-mate é a regra mais importante do xadrez que nada tem a ver com como as peças se movem. As duas posições compartilham a característica superficial — o jogador no turno não tem jogada legal — mas têm resultados opostos.
A diferença:
Xeque-mate: O jogador no turno está em xeque e não tem jogada legal. O jogador perde.
Afogamento: O jogador no turno não está em xeque e não tem jogada legal. A partida é empate.
A presença ou ausência de xeque ao rei é toda a diferença. Uma posição em que o rei está em xeque e sem escape é a derrota; uma posição em que o rei não está em xeque mas também sem escape é o empate.
Casos-limite
E se eu tiver um peão que pode promover mas nenhuma outra jogada legal? Se a promoção for legal, a posição não é afogamento. A jogada de peão é uma jogada legal.
E se todas as minhas peças estiverem pregadas mas o rei não tiver jogada legal e não estiver em xeque? Se pelo menos uma peça pode mover-se legalmente (mesmo que perca material), não é afogamento. A posição é afogamento somente quando não há absolutamente nenhuma jogada legal disponível.
E se o rei tiver apenas uma casa para mover e essa casa estiver atacada? Então a jogada do rei é ilegal, e se nenhuma outra peça puder mover-se legalmente, a posição é afogamento.
O afogamento pode ocorrer na abertura ou meio-jogo? Em princípio sim, mas é extraordinariamente raro. Quase todos os afogamentos ocorrem em finais com pouquíssimas peças no tabuleiro.
O afogamento é, por consenso geral, a regra de empate mais importante do xadrez. Governa o resultado de uma enorme quantidade de finais práticos e é a razão pela qual o lado mais fraco, mesmo com desvantagem material esmagadora, tem um recurso defensivo nos finais de rei e peão.