Sergey Karjakin conquistou o título de grande mestre aos doze anos e sete meses — recorde que durou quase duas décadas, até Abhimanyu Mishra quebrá-lo em 2021. O mais notável na carreira de Karjakin não é ter chegado ao topo tão cedo, e sim ter permanecido lá: foi presença constante entre os dez melhores do mundo ao longo dos anos 2010, venceu a Copa do Mundo de 2015 e desafiou Magnus Carlsen pelo título mundial em 2016. Por qualquer medida ajustada à inflação de rating, é o menino-prodígio mais bem-sucedido da história do xadrez.

O grande mestre mais jovem

Karjakin nasceu em Simferopol, na então Crimeia soviética (RSS da Ucrânia), em 1990. Sua formação enxadrística inicial foi com Vladimir Kogan, antigo treinador de Anatoly Karpov, e depois com Yuri Dokhoian, por muitos anos segundo de Garry Kasparov. Conquistou o título de mestre internacional aos onze anos e o de grande mestre em 2002, aos doze anos e sete meses — o mais jovem de todos os tempos naquele momento, superando o recorde anterior, de Ruslan Ponomariov.

Seu primeiro grande êxito internacional veio no Aeroflot Open de 2004, em Moscou, que venceu aos catorze anos. Jogou pela Ucrânia até 2009.

Os anos russos

Karjakin adotou a cidadania russa em 2009, alegando acesso a melhores recursos de treinamento e a mais oportunidades de torneio. A decisão foi controversa e permaneceu por anos como nota recorrente na cobertura enxadrística ucraniana.

Sua carreira russa no início dos anos 2010 o consolidou como um grande jogador de elite. Venceu Wijk aan Zee em 2009 e a edição inaugural do Norway Chess, em 2013, e terminou entre os três primeiros em vários Torneios de Candidatos. Seu rating máximo, de 2788, veio em julho de 2011, quando tinha vinte e um anos.

Conquistou o direito ao match pelo título mundial de 2016 vencendo a Copa do Mundo de 2015 em Baku — derrotando Svidler na final — e, em seguida, o Torneio de Candidatos de 2016 em Moscou, à frente de Caruana, Anand, Aronian e outros. O Candidatos foi decidido na última rodada: a vitória de Karjakin sobre Caruana, somada ao empate de Anand, deu-lhe o primeiro lugar isolado.

O Campeonato Mundial de 2016

O match contra Carlsen foi disputado em Nova York, em novembro de 2016. As sete primeiras partidas terminaram empatadas. Karjakin venceu a oitava — sua única vitória clássica no match — com uma defesa obstinada seguida de um aperto tático sobre a posição ligeiramente sobrecarregada de Carlsen. Carlsen igualou na décima partida. As demais partidas clássicas foram empatadas. O placar clássico de 6–6 levou o match a um desempate de quatro partidas no ritmo rápido.

No desempate, Carlsen venceu duas das quatro partidas. Karjakin havia jogado à altura de seu nível — um placar de 6–6 contra o número 1 isolado do mundo foi amplamente considerado um resultado excelente —, mas o rápido superior de Carlsen decidiu o título. A última partida terminou com o famoso sacrifício de dama de Carlsen, 50.Qh6+!, que Karjakin teve de aceitar e que levou a mate imediato.

A preparação de Karjakin para o match, em especial sua resiliência defensiva em partidas longas, foi muito admirada. Os torcedores russos o apelidaram de «Ministro da Defesa» por sua capacidade de sustentar posições que os engines inicialmente avaliavam como perdidas.

Depois de 2016

Karjakin venceu o Campeonato Mundial de Blitz de 2016 em Doha, dois meses depois do match pelo título, e chegou a mais alguns ciclos de Candidatos. Venceu o Norway Blitz de 2019, jogou pela Rússia em várias Olimpíadas e manteve-se entre os vinte melhores do mundo até 2021.

Em 2022, Karjakin apoiou publicamente a invasão russa da Ucrânia, posição incomum para um jogador nascido na Crimeia que havia jogado pela Ucrânia na juventude. A FIDE lhe impôs uma suspensão de seis meses por violação de seu código de ética. Desde então, não disputou nenhum evento clássico válido para o rating FIDE.

Legado

A contribuição de Karjakin ao xadrez se dá em dois planos. Como prodígio, estabeleceu o parâmetro para a geração seguinte: o recorde de grande mestre mais jovem permaneceu em doze anos e sete meses por mais de uma década. Como competidor, seu match contra Carlsen em 2016 foi a disputa clássica mais equilibrada pelo título mundial na era Carlsen — e sua derrota no desempate rápido é o momento em que ficou claro que a superioridade de Carlsen no rápido dominaria os matches da era clássica.

Seu estilo defensivo — a disposição de moer cinquenta lances numa posição ligeiramente pior, a precisão nos finais, a engenhosidade no contrajogo — representava uma tradição clássica soviética e russa que, de resto, foi em boa parte suplantada pela preparação de aberturas assistida por computador. Talvez seja ele o último jogador a chegar a um match pelo título mundial sobretudo pela força da resistência prática, e não da teoria de aberturas.